
03/08/2008
Gosto da natureza, de estar em contato com o verde. Gosto do campo, cheiro de terra molhada, aquela sensação de estar em outro mundo… E de certo tempo pra cá tenho me aventurado mais. Juntando o gosto pelo campo mais o interesse recente na prática de esportes, resultado: Trilha, rapel, escalada, cachoeiras… Além de me tirar do ritmo do consultório, economiza em terapia e dá ótimas estórias pra contar.
Meu irmão vai todos os anos ao Pico da Bandeira. (O Pico da Bandeira é o terceiro ponto mais alto do Brasil com 2.892 metros de altitude (medição revista por satélite/GPS pelo IBGE em 2004). O Pico está localizado no Parque Nacional do Caparaó, na divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, na Serra do Caparaó sendo que o cume do pico está localizado no município capixaba de Ibitirama.[Deus salve a Wikipedia]). Resolvi que eu iria esse ano com ele, afinal de contas, sou uma quase aventureira profissional (cof, cof)! Já que voltei a correr, meu fôlego está ok, pensei. Vai ser uma subida tranquila, mas fria pra caramba. Conversei com meu irmão e uns amigos que já tinham ido. Ganhei um gorro pra subida (Thanks Marcelo) enchi a mochila de roupas e fui.
O combinado é que iria um grupo de seis pessoas, três no nosso carro e mais três em separado. Embarcamos eu, irmão e Lu, que também nunca tinha ido. Previsão do tempo: Sol entre nuvens em Alto Caparaó, YES! Passamos no mercado para as compras de suprimentos: 4 miojos, duas sopas, dois pacotes de biscoitos, limões, energéticos, barras de cereais e Sagatiba. Carro cheio, nós na estrada. O povo do outro carro ainda não tinha dado sinal de vida, mas não íamos nos prender, já que havíamos feito as reservas.
Algumas horas de música, bobagens, caminho errado e dança do quadrado (?), chegamos ao Parque Nacional do Caparaó. Durante a identificação, os guardas disseram que no fim de semana anterior a temperatura tinha chegado a -4 graus no terreirão, e MENOS DEZOITO GRAUS CELSIUS no pico. Congelei só de pensar na possibilidade, e descongelei quando eles também disseram que nesse final de semana não teria como esfriar tanto. Chegaria a uns 5º, no máximo, ou mínimo, sei lá. Como eu estava de camiseta e assim permaneci, sem mais roupas pro frio, acreditei.
Fomos pra Tronqueira, armamos a barraca e fui tomar um banho. Ledo engano. Tentei tomar banho, mas tomei uma anestesia por aspersão, com aquela água gelada do cacete! Diz a lenda que tinha um aquecedor solar no banheiro, mas por algum motivo ele estava quebrado. Depois de um dos mais vagabundos banhos da minha vida, de volta à barraca, onde um leve friozinho pediu um casaco, acho que mais pelo maldito banho do que pela temperatura em si. Lanche rápido e sono. Sono? Não consegui dormir direito, e ainda não sei bem porque, se por causa do ronco da Lu do meu lado, pelo frio nos pés mesmo com meia, cobertor e saco de dormir, ou se já estava prevendo o que viria…
Sábado de manhã. Acordamos com uns barulhos esquisitos, uns grunhidos além da conversa dos outros campistas… Uma invasão de quatís! Uns 30, bem pertinho da nossa barraca. Não deixamos nada de comida jogada, nem de cheiro forte que pudesse atraí-los, mas os bichinhos já estão acostumados a serem fartamente alimentados pelas pessoas, e estavam lá esperando a cota de comida. Tomamos café (eu e os outros dois, não os quatís) e saímos em direção ao Vale Encantado, umas cachoeiras ali por perto. A estrada para o tal vale começava na mesma trilha do Terreirão, que era pra onde a gente ia mais tarde, e era uma subida de aproximadamente 400 metros. Quase capotei. Cadê meu superpreparo físico de quem tava correndo todo dia? Quatrocentos metros pra quem teria que subir nove quilômetros até o cume do pico? Lascar-me-ei… Chegamos ao tal Vale, tiramos algumas fotos e voltamos à tronqueira, para pegar o carro e dar um pulo na cidade, para almoçar e comprar algumas coisas que faltavam. Ligamos pro Rafa, que ia no outro carro com os outros dois em separado, e ele avisa que não dava pra ir. Voltamos, arrumamos as mochilas pra subida ao Terreirão, ponto intermediário da subida ao pico. 4,5 km de subida, intercalada com umas dez paradas pra sedentária aqui. Além do fôlego que tava curto e piorado pela altitude, uma tontura e dor de ouvido de tirar a alegria. E isso porque mandamos nossas mochilas de mula, nossa subida foi de mãos abanando… Uma hora e meia de subida depois, chegamos ao terreirão, quase anoitecendo. Reconhecimento de terreno, armação de barraca e um pôr do sol de encher os olhos, com aquele céu vermelho, parecendo que queimando com o fim da tarde, atrás das montanhas! Um projeto de banho (diacho de água fria) e uma agasalhada beeem melhor (8º aquela hora da noite, com grandes chances de piora) pra tomar sopinha feita pelo irmão. Depois da sopinha, uma caipirinha! (Porque a Sagatiba não foi esquecida!) Mas resolvi me abster da referida com medo de não conseguir acordar cedo o suficiente, pois o horário escolhido para a subida era 3:30 da manhã. Relógio pra despertar e sono.
Capotamos geral por causa do cansaço até o terreirão, certo? Errado. Praticamente todos os campistas resolveram subir às 2:00, e fizeram um barulho infernal. Irmão despertou antes do relógio, e nos botou de pé as três horas. Estava pronta pra subir, depois de 20 minutos de vestimentas: Meia calça, três meias, três calças (duas de moleton), camiseta, duas blusas de gola alta, moleton, gorro e dois pares de luvas. Parecia que ia pra Sibéria, e me sentindo o boneco da Michelin… Desde a cirurgia não me sentia tão redonda, credo! Pensei, repensei, cogitei não subir. Meio por preguiça, meio por sono, meio por aquele maldito pensamento negativo de “Você não vai conseguir mesmo… Se pro terreirão você sofreu horrores pra chegar…”. Sabe aquelas coisas de desenho do diabinho e o anjinho lutando entre si? Pois é. Espantei o pensamento com um lampejo de sanidade: “Você não veio até aqui pra desistir agora”. Me lembrei de quantas coisas deixei de experimentar por puro medo, seja de me machucar, seja de não conseguir concluir. Me lembrei de todas (quase todas, vai) as barras que eu passei e consegui vencer. E resolvi subir. O seria ruim chegar ao meu limite e não alcançar o cume, mas o fracasso seria se eu não subisse por medo. Eu tinha que tentar, e fui.
Saímos do terreirão as 4 da manhã, pra ver o sol nascer no alto do pico. Durante a subida, pensei seriamente em desistir umas 4 vezes, em uma delas eu parei pra tirar o moleton e perdi o gorro no escuro, ele caiu, rolou e não consegui mais vê-lo (Marcelo, não me odeie por favor!). Meu irmão queria me jogar de cima de um morro qualquer, a Lu me dando muita força, mas lá pelos 3 kms de caminhada os dois me deixaram com um grupo de retardatários tão sedentários quanto eu. E depois de uns 200 metros, os meus novos companheiros desistiram da subida. Depois de tudo isso, de ter passado mais da metade do caminho pro pico, olhei pra frente e vi morro, pedra, subidas, e lá em cima, um cruzeiro… Era o pico! Agora eu ia até o fim, e de verdade. Nem que eu chegasse as 10 da manhã, e ainda eram 5 e pouco. A lanterna quase apagando, eu sem água nem companhia. Eramos eu e a montanha. Fui, no meu ritmo, respeitei meu tempo, parei algumas (muitas) vezes e pensei bastante. Cheguei à conclusão que eu chegaria quando parei de ver o problema do morro e me peguei cantando… Vi o nascer do sol a uns 150 metros do cume, e cheguei ao cruzeiro 15 minutos depois do meu irmão e da Lu. CHEGUEI! Um prazer indescritível, tanto pela visão absurdamente maravilhosa (é realmente um dos lugares mais bonitos que eu tive o prazer de conhecer) quanto pela satisfação em ter conseguido, quando nem eu mesma acreditava que chegaria. Pensei em Deus, na minha família, em mim, e naquele diabinho motherfucker (TOMA!) que, ainda meio cambaleante do nocaute que eu dei, balbuciava que eu ainda tinha todo o caminho de volta…Foi aí que eu me dei conta do frio que tava fazendo lá em cima. Nunca senti tanto frio na vida! Uns 4º segundo uns carinhas lá, mas a sensação térmica era de -5º!!! E eu era a única pessoa entre as quase 150 lá em cima sem gorro! Tirei umas fotos terríveis, diga-se de passagem. O excesso de roupas me deixou horrorosa. Da próxima vez vou tentar subir com mais glamour. E pé na trilha de volta, mas pra baixo todo santo ajuda, né? Acabou a dor, acabou a tontura… Saímos 7 e meia do pico, nove horas já estávamos no terreirão, mas sem sinal do meu gorro na volta. Sentamos na barraca pra descansar, acabamos cochilando, e dali a pouco um calor tomou conta do lugar. Foi tomar água, dar uma lavadinha nos órgãos vitais e morro abaixo de novo, de volta à tronqueira. Fácil? Ná, agora as mulas éramos nós. Mochilas putaquepariumente pesadas, e uma descida de uma hora e quarenta minutos… Chegamos exaustos, pois pros outros dois também não foi nada fácil. Banho (?) de novo e pé na estrada, com parada estratégica no pão com linguiça.
Escrevo estas com dores nos ombros, coxas, panturrilhas, tornozelos e pés. E um sorriso de orelha a orelha, de quem aprendeu uma valiosa lição. Eu posso ser minha maior inimiga ou minha melhor amiga, só eu posso decidir. Aliás, duas valiosas lições: Nunca suba uma montanha de meia calça. Os dedos vão agradecer.